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quarta-feira, 10 de maio de 2017

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Foto do Filme: O Último Capítulo.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar.

  
   A criatura estava largada em um canto do quarto. Deitada em posição fetal, com os olhos abertos e vidrados em lugar algum. Não havia sentimentos, muito menos emoção, era um recipiente de nada. Sentia o tecido macio cobrindo boa parte de sua pele, sentia uma onda de calor chegando em ondas e atravessando suas células. Teria células ainda? Não sabia, não sabia se essa onda de calor seria a loucura chegando e a inundando de incertezas. Sua respiração estava normal e harmonizava com o canto diurno das aves que ela escutava ao longe. Asas. Queria ter asas. Para fugir? Para viver de verdade? Para ver todas as formas da natureza e da destruição do homem se mesclarem num borrão meio escuro enquanto o vento forte a levava embora? Retorceu-se no monte macio onde estava, sentiu o tecido fixasse em seu pescoço, mas não se movimentou para tirá-lo. Estava cansada, cansada das engrenagens dentro dela, a obrigando a viver numa eterna repetição de tarefas bobas. Um grito de uma das aves ecoou pelo quarto escuro, a onda de calor moveu-se ao seu lado. Sentiu seu corpo erguendo-se, mesmo que sua mente estivesse dispersa demais para ordenar tal movimento. O tecido que a cobria, como se fosse uma camada mais grossa de sua pele, amontou-se a sua volta. Levantou-se. 

   Seus pés se arrastaram até as cortinas da enorme janela de madeira, suas mãos deslizaram pelo tecido áspero e o tirou do caminho da luz. O sol a saudou. Olhou para o amontoado de casas ao redor da sua, estendeu a mão em um cumprimento para o vizinho que sorria pra ela. Ordenou ao seu cérebro que movesse a sua boca num sorriso gentil, mas não conseguiu. Abaixou a mão e a deixou caída ao lado de seu corpo. O despertador rugiu, a onda de calor ficou mais forte. Acordando, a enchendo de sua presença. Virou-se e dessa vez as engrenagens torceram-se dentro de si, tossiu para recuperar a força de sua voz. Conseguiu.

   -Bom dia, vou descer para preparar o café. - a onda de calor a encarou sorrindo. Moveu seus pés e as engrenagens dentro dela, moveram-se com facilidade. 


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Ruptura

Foto: Cena do Seriado: True Blood.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar.



   Eu disse Adeus, mal acreditando que aquela palavra de rompimento partia de mim. Saiu rápido, meio sussurro, meio estrangulamento. Ainda me lembro da minha boca seca enquanto meus olhos transbordavam. Tudo o que eu era estava resumido naquela palavra simples. Todas as noites em que não dormi, as enxaquecas gritantes na escuridão do quarto, aquela dor conhecida que tomava meu corpo todo desapareceram. 

    Estava cansada das desculpas de última hora ou dos beijos rápidos. Cansada de encarar olhos que não me refletiam. Eu cresci ali... naquele segundo de absoluta certeza. Me senti inteira de novo, o que eu havia lhe doado, recuperei. Eu não era mais a mesma mulher, nunca mais seria. Tornei-me outra ali, enquanto você me virava as costas pronto para partir. 

    Senti novamente o ar que me faltava naquelas noites em que eu pressionava meu rosto na dobra do travesseiro, chorando por alguém que nunca me viu. Quando escutei o silêncio da casa, recuperei meu Eu. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Nada

 
Foto: Cena do Filme: A Bruxa.


   Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar.


   Ouço o tic-tac dos ponteiros do relógio, sinto que eles me guiam de volta para casa. Mesmo quando não reconheço o corpo ou a mente que me aprisiona. Às vezes me perco nas areias do tempo, vou me dissolvendo como se eu fosse um objeto sugado por areias movediças. 

   O que é um instante para você? Um instante para mim varia entre o agora e o que poderia ser o agora. Posso ter fé em um dia e me tornar cético no outro. O impossível é apenas um nível de dor em mim. 

   Tenho sonhos quebrados e frases distorcidas povoam a minha mente. Posso afirmar que existo? Posso afirmar que hábito um corpo que é meu e sempre será? Até que a terra o engula e regurgite os ossos? Como em um ritual?

   Continuo acordando exausto todas as manhãs, com olheiras e o suor colando minhas roupas em meu corpo. Encaro o espelho e algo me encara de volta. E a única pergunta fixa a martelar o meu cérebro, da hora em que sei que despertei e a hora que caio exausto em travesseiros macios, é: Quem sou eu? 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Espírito Livre

Foto: Foto de Divulgação do Filme: "Millenium: Os homens que não amavam as mulheres".


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

  O silêncio não fazia parte alguma de mim. Tudo por dentro estava em plena ebulição. Meu sangue fervia como se estivesse tornando-se lavas de um vulcão furioso. Eu não conseguia pensar direito, porque vocês faziam parte de todo o meu ser. Dividida ao meio. Um lado fervia tanto que eu podia contar as batidas ensurdecedoras do meu próprio coração. O outro lado estava calmo como sempre, um ponto certo de puro equilíbrio.
   Uma parte minha queria pegar o carro e fugir a toda velocidade para qualquer parte do mundo. A outra parte queria estar ali, enroscada naquele lençol com aquele corpo quente fazendo companhia. Duas partes que nunca se mesclaria numa pessoa só. Para sempre dividia entre a razão e o coração.

   Eu queria tanto fugir, mas os problemas estão todos na minha mente. Eu queria ficar, mas nunca me achei uma companhia muito agradável por mais de alguns dias. Meu espírito é totalmente livre. E meu coração é tolamente selvagem. Não quer ficar solto, mas não suporta que o acorrente. Poderia alguém me amar ao mesmo tempo em que me deixaria livre por aí? Poderia eu tentar entender as emoções de outra pessoa enquanto as batidas do meu coração ensurdecem meus ouvidos?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ao sabor do vento...

Foto: Filme "A Garota da Capa Vermelha".

Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Ela estava mais uma vez perdida entre os ramos das suas paredes selvagens. Ele sempre a ouvia resmungar sobre como era quase impossível encontrá-lo ali. Ele já estava cansado das lágrimas dela. Do cheiro adocicado dela. Da forma como ela sempre vinha para ele, mesmo ele tentando ao máximo evitar o confronto. 

   Olhando para ela, entre os galhos das árvores em que estava escondido, ele se perguntava quanto tempo ele iria aguentar vê-la ali sem tocá-la. Mordendo o próprio lábio, respirou fundo o perfume natural dela. Levou para dentro de si uma parte dela. Uma parte que seria sempre sua. Uma parte que sempre quando o vento batesse nos cabelos dela, ele teria. Uma forma de amá-la sem destruí-la. Uma parte que sempre poderia evitar confrontar.

Jogando pro outro lado...

Foto: Arquivada no blog. Google.


Para: "J". Retaliação.

Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar.

   Ele odiava estar ali sentado, preso naquele maldito lugar. Sorria, falava casualmente, sorria de novo, bocejava opa! Isso foi uma careta que escapou? Droga! Precisava se proteger dos olhares curiosos dos outros! Explicou o que tinha para explicar e sentou-se novamente esperando alguém que não o houvesse entendido. Sempre havia dúvidas! Sobre coisas tão óbvias! E o que eram aquelas meninas no fundo da sala dormindo enquanto ele explicava tão bem como era o trabalho? Era o fim! Odiava aquele lugar! Queria ir embora! Queria sair dali! Jogar aquela maldita peteca pra outro cara!
   Passou as mãos pelo rosto. Merda! Havia se esquecido de fazer a barba... pela terceira vez! E tudo porque se perderá no tempo da sua mente. Lembrava claramente agora, estava com o gilete na mão, e com espuma por boa parte do rosto, mas quando olhou-se no espelho, pensou que na verdade contraíra uma doença que seria fatal para ele, como se fosse uma das personagens de Resident Evil! E esquecera-se de se barbear de novo! Merda!
   Bufou de desgosto, quando viu uma mulher se locomover na sua direção. A dúvida surgira. Shakespeare? Ser ou não ser? O que Shakespeare diria para solucionar as dúvidas daquela dondoca? Não! Shakespeare não! Sherlock Holmes conseguiria detê-la e salvá-la de um assassino cruel! Sorriu, e percebeu que ela lhe sorria. O que diabos aquela menina estava dizendo? Droga! Sorriu amarelamente. Merda, merda, merda! Quando tudo se tornara difícil? Suspirou e passou as mãos grandes pelo cabelo. Mas, o quê? Por que não se penteou direito? Ah, tinha parado para comer um delicioso bolo de chocolate que sua amiga lhe fizera, e deixará o gel cola em algum lugar... um lugar bem longe de seus cabelos rebeldes! Inferno!

   E a garota falou, falou, falou... e ele hora ouvia, ora se tele transportava para um dos filmes dos anos oitenta. Droga! Tinha que ser feliz e fugir dali rápido! Foi quando o sinal soou, lhe dizendo que era um homem livre de novo. Sorriu dessa vez feliz por ter suportado aquele dia fatídico!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O Último Sacrifício

Foto: Cena do Filme: "Orgulho e Preconceito".


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Ele sentia imensamente a falta que ela fazia em sua vida. Sentia falta do cheiro adocicado do perfume dela. Da cor do batom que manchava sempre o seu travesseiro. Do jeito dela de sorrir somente com os olhos.  Do jeito como dizia o nome dele... como se fosse uma prece.
   Agora, enquanto vagava descalço pela casa, tocando as paredes com as pontas dos dedos, fechava os olhos apertados. Obrigava o seu cérebro a mandar as imagens dela de volta pra ele, como se ela nunca houvesse ido embora.
   Ele já havia chorado tudo o que tinha pra chorar. Estava cansado, farto de toda aquela dor. Estava farto de acordar de manhã e não ter o par de olhos claros o encarando.
   Se pudesse ao menos implorar pelo perdão dela! Se soubesse o que ela queria que ele fizesse como forma de reparação pelo erro que cometera!

   Seus olhos lacrimejaram novamente. Ele iria definhar! Iria amargar a dor de um amor perdido! Iria morrer aos poucos por não tê-la! Iria morrer de saudades dela...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Torre de Babel

Foto: Cena do Filme: O Albergue.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   (choro)
   Eu não me lembro! Não consigo me lembrar! Oh, céus! O que farei? Por que estou aqui? O que faço aqui?
   Esse lugar é tão escuro! Só há uma janelinha, por onde entra uma luz! Mas ela é tão alta! Nunca chegarei até lá para gritar por socorro! Por que isso está acontecendo comigo?
   Eu não lembro! Não lembro! Quem me trouxe aqui? Deve ser um pesadelo! Tem que ser um pesadelo! Se eu dormir, quando acordar estarei em casa. Segura e confortável! Por favor, segura e confortável!

(silêncio)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Dizendo Adeus...

Foto: Cena do filme: O Último Trem.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Ele olhou através daquela plataforma vazia. Seus olhos estavam tristes e suas pálpebras pesavam mais do que toneladas de angústia. Sua mochila surrada jazia as suas costas. Um peso morto. Um maldito peso morto.
   Suspirou, não uma, mas várias vezes. Fechou os olhos bruscamente e suspirou pesadamente, como se assim fosse se livrar daquele peso que estava carregando. Estava saturado. Cansado. Indignado. Triste. Terrivelmente solitário.

   Queria gritar! Berrar! Chutar coisas! Correr! Correr, correr, correr, enquanto chorava, enquanto o vento forte batia-lhe na face já corada pelo esforço! Queria morrer! Queria voltar lá e brigar! Queria viver sem medo! Queria renascer da merda em que estava mergulhado até a cabeça! Queria... queria ardentemente dizer adeus a tudo e a todos! Queria se despedir e nunca mais voltar para aquele maldito lugar do qual fugira! Queria se vingar...

Ventos do Norte

Foto: Série: Vikings


Para: Felipe. Uma das melhores pessoas que eu tive a honra de conhecer. Te adoro.

Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Ela soube que iria chegar uma furiosa tempestade, apenas porque parou de fazer tudo e escutou a angústia do vento que vinha do Norte. Sentiu o cheiro daquela tempestade quando ela se encontrava ainda no outro extremo do oceano. Seus companheiros, homens leais e fortes lutadores, empalideceram como se pudessem enxergar além da neblina que se formara. Os deuses virariam às costas a eles que buscavam alimentos para os mais fracos da sua tribo? Seria um castigo por não terem dado ouvido a vidente cega?

   Quando o vento rugiu ao longe, ela sentiu as primeiras lágrimas surgirem no seu rosto. Seu povo morreria se não voltasse logo com algo do mar para comerem. Não haviam conseguido nenhum acordo bom com a tribo do leste. Era a ruína deles. Onde estariam seus deuses? Seus irmãos começaram a cantar uma oração suplicante por piedade. Ela se viu cantando com eles automaticamente. Segurou firmemente seu amuleto de proteção que a vidente lhe entregara. E por uma espécie de milagre divino, ela escutou novamente o rugido do vento enquanto ele ia embora e levava o seu poder de destruição com ele.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Quando ela morreu...

Foto: Cena do Filme: "O Morro dos Ventos Uivantes - 1992"


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Meu coração morreu no dia em que eu a encontrei sem ar. Ela estava deitada sob a cama, com um braço pendendo para fora, os lábios estavam entreabertos, como se ela estivesse perdida em um infinito véu que a levava para o mundo dos sonhos. Para longe de mim.
   Meus olhos se recusaram a aceitar o que viam. Meu cérebro rejeitou toda aquela informação. Senti meus joelhos cederem antes que eu me desse conta do que eu estava fazendo.

   Com um grito preso em minha garganta eu agarrei aquele corpo gelado e o trouxe para os meus braços. A envolvi em meu paletó e beijei os cachos loiros dos seus cabelos. Chorei copiosamente por várias horas, até que não houvesse mais nada em dentro de mim. Só um buraco que nunca mais seria novamente preenchido.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Larvas

Foto: Arquivo do Blog.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   A maçã podre estava posta sob a mesa. Ela esticou a mão e tentou capturá-la com os dedos frágeis e trêmulos. Queria prová-la? Não, mas era isso o que ela merecia por ter sido tão ingênua. Sentia vontade de saboreá-la... a fruta junto com as larvas. Sentia vontade de vomitar tudo de ruim que estava dentro dela.

   Chorava copiosamente, enquanto recolhia a mão. Tinha que se livrar do pecado que ela transmitia. Tinha que manter um lado de sua alma intacto, contra todas as coisas ruins que existiam no mundo. Tampando os olhos com as mãos, limpou todas as lágrimas acumuladas nos cantos dos seus olhos. Tinha que parar de sofrer.

domingo, 17 de novembro de 2013

Garotinha

Foto: Filme Lolita - Capa.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

      E lá ia a sua garotinha. Usando os imensos óculos em formato de coração que ele já vira. Ela andava como se dançasse algo que somente ela escutava. Seus pés e braços se mexiam num ritmo empolgante. Seu cabelo mal cortado voava em todas as direções. Ele gargalhou com vontade, atraindo para ele aqueles óculos estranhos, que escondiam olhos bem zangados.
   Ela começou a dançar mais rápido enquanto sorria abertamente. Ele a amava, como amava sair ao sol todos os dias. Passou uma das mãos pelo topete bem feito que ele passara a manhã inteira pra fazer. Gargalhou de novo. E foi dançando desavergonhadamente até ela. Como se ele fosse o novo Elvis. Como se sua vida dependesse da emoção dela.

    Enquanto sua garotinha e ele dançavam uma música que somente eles escutavam, um grupo de velhos adeptos aos hábitos tradicionais passava pela rua com expressão chocada. Eles não deviam estar estudando? Ou lendo a bíblia? Realmente, era o fim do mundo!  

domingo, 27 de outubro de 2013

Flor do Deserto

Foto: Cena do filme: "A Múmia - 1999"


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   O vento quente insistia em queimar mais do que devia seus cabelos encaracolados. Seu tom de pele já não era mais tão branco quanto antes. E o brilho em seus olhos continuava tão vívido como sempre estivera. Ela amava o calor do tirano sol. Assim como amava andar descalça pelas vielas que levavam a sua modesta casa.
   Ela gostava imensamente da sua solidão e sempre que podia conseguia correr para aquele pedaço de céu que ela adorava. Seu esconderijo das crueldades do mundo. Onde seus pensamentos podiam correr livremente sem que ela pudesse barrá-los por medo de que escutassem e zombassem do seu coração generoso.

   Com um sorriso nos bonitos lábios, ela fechou os olhos. Tinha mais duas horas antes do sol ir embora pra longe dela. Ficou parada ao pé de uma antiga árvore, esperando que os raios do sol lhe dessem um último beijo apaixonado... como se eles fossem amantes.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Tempo de dizer Adeus...

Foto: Cena do Filme: "Edward: mãos de tesoura"


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Ela estava sentada numa velha poltrona confortável, enroscada em alguns cobertores que havia surrupiado do quarto. A lareira estava acesa e um delicioso chocolate quente a mantinha corada. Esperou sentir no fundo do coração aquele aperto conhecido, mas ele não veio. Ela só conseguia sentir o calor que o fogo da lareira trazia e seus velhos sentimentos voltando ao seu lugar de origem. Sorriu.
   Fechando os olhos, franziu suavemente a testa e se perguntou por que curou uma dor de amor sem o ter substituído por outra coisa. Sorriu novamente mediante sua própria inocência. Estava completa de novo. Poderia finalmente voltar para sua velha rotina e reencontrar o par de olhos que ela conhecia tão bem sem se alarmar. Poderia dizer que estava bem, sem estar mentindo sobre isso. Disse adeus mentalmente para o homem bonito que ela amara um dia. Seu coração estava insanamente recomposto do erro que cometera.

   Bebericou mais um pouco do chocolate. Enroscou-se mais ainda em seus cobertores e adormeceu. Sonhou com um dia bonito de verão. Sonhou com seus amigos mais próximos. Sonhou com a palavra “felicidade” sendo formado por pássaros negros. E enquanto se alegrava em seu mundo dos sonhos, disse adeus mais uma vez a ele.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Lapsos...

Foto: Cena do comercial do perfume da marca Chanel.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Eu estava novamente sonolenta. Meus pensamentos se perdiam entre simples piscadas de olhos. Eu estava só. Mas ao mesmo tempo estava com alguém. Alguém que só existia na minha mente. Alguém que me fazia dormir, quando a histeria ameaçava me engolir. E que cuidava de mim, quando ninguém podia.
   Enrosquei-me em meio as minhas cobertas e sussurrei para o vento que chamasse aquele que nem o nome eu sabia, mas que eu precisava sentir que ele estava ali... perto de mim. Colocando-me pra dormir. Embalando-me.

   Fechei os olhos novamente. Franzi a testa. Onde estaria? Em qual parte da minha mente ele se metera dessa vez? Não percebia que eu estava acabada e que precisava de consolo? Foi quando senti um vento leve se movimentando entre as minhas cobertas. Senti a sua respiração no meu pescoço, como se ele sorrisse da minha necessidade. Sorri também. Não estava disposta a deixá-lo escapar pelos meus dedos outra vez. Então me forcei a dormir para poder vê-lo em meus sonhos.

sábado, 28 de setembro de 2013

Entre Lençóis...

Foto: Cena do Filme: Infidelidade.


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Meus olhos não aguentam mais nem a simples menção da palavra choro. As olheiras na minha face denunciam outra noite sem dormir. O vazio em que minha alma se encontra não tem fim. A minha rotina é a única solução que eu encontrei para não enlouquecer sem você aqui. Já deveria saber desde o começo a dificuldade que seria seguir sem você.
   Lembro-me com uma vivacidade espantosa de cada momento nosso, mesmo quando eu duvidava dos meus próprios sentimentos para com você. Sempre fui uma mulher com um pé atrás quando o assunto era amor. Seus gostos ficaram gravados em mim de uma forma assustadora. E quando eu vejo alguém que usa alguma roupa que você gostava de usar, não é mais um estranho passando por mim, mas você. Eu tento esquecê-lo todos os dias, mas percebi que as raízes suas estão esparramadas por todo o meu corpo. Eu tento me apaixonar por outra pessoa, eu tento esquecer você enquanto escuto uma música mais agitada, mas você está em tudo ao meu redor. Eu só queria poder apagá-lo da minha memória.

   Agora aqui estou eu chorando de novo. Com o coração quebrado pela vigésima vez. Meus soluços já se tornaram um rugido suave de dor. Esparramada pela cama, enroscada em meio a lençóis imagino você aqui comigo. Entre as minhas pernas. Reclamando o meu coração e meu corpo. Mas tudo virou um redemoinho de dor na minha cabeça. E meu único consolo é saber que as lembranças vão se apagando com o tempo. E que um belo dia vou olhar com olhos cobiçosos outro rapaz.

domingo, 30 de junho de 2013

Alguém salve o mundo!



Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Oi. Meu nome é Sarrah, tenho nove anos de idade. Moro aqui na África. Mamãe e papai se esforçam para nos dar o que comer. Mas eu acho que Deus nos esqueceu. Tenho mais quatro irmãos, o bebê está doente... ele tem fome!
   Eu não vou para a escola, eu trabalho lavando roupas no rio. Ganho algumas moedas, é pouco, mas ajuda na compra de comida. Água, falta muita água! Às vezes nem tomamos... é difícil tomarmos banho. Pois se tomarmos, podemos ficar até cinco dias sem água alguma.
   Lourrette, minha irmã mais velha, anda mais de sete quilômetros para pegar água, isso quando tem. Só que essa água não é transparente, há barro nela. Muitos torcem o nariz quando nos vêem tomando essa água. Mas ela é a única que nós temos!
   Vejo mamãe chorar todos os dias. Muitas vezes ela não come, para eu nós possamos comer. Uma refeição por dia. Às vezes nem isso! Eu choro também. Mas o que eu posso fazer? Eu queria trabalhar, para ganhar um monte de dinheiro para comprar comida e muita água. Água que não tenha cheiro. Água que não tenha cor.
   Nós não temos brinquedos. Os estrangeiros que vêm aqui acham que somos atrações para os divertir. Será por que somos negros? E pobres? É a cor que faz a pessoa?
   Apesar disso tudo, ontem eu sonhei que o mundo seria algum dia um lugar melhor.  Eu tinha muita comida no prato. O bebê não estava doente. Papai e mamãe sorriam. E eu sabia escrever, pois essa carta só foi possível graças a uma pessoa boa, que se importou com a gente, apesar de ser tão pobre quanto nós.

Com amor, Sarrah, para todo o mundo!

domingo, 23 de junho de 2013

Amor?

Foto: Cena do Filme: Sob o Sol da Toscana


Autora: Ana Paula Damasceno de Aguiar

   Ele havia partido seu coração mais uma vez. A dor que ela deveria sentir, dessa vez não veio. Ela, inocentemente se perguntou: “Por quê?” Mas sua mente se recusou a responder a sua dúvida. Ela limpou uma única lágrima solitária que rolou por seu rosto, enquanto um sorriso surgia. Como se fosse o sol depois da tempestade.
   Ela arrumou-se com seu melhor vestido e colocou seu melhor sapato. Não se maquiou, porque seu coração pedia que ela corresse contra o tempo. Sem saber pra onde ia, atravessou a avenida movimentada no sinal vermelho, não escutou o barulho dos freios, nem os xingamentos das pessoas. Escutava apenas o barulho ensurdecedor do seu coração. A caixinha que ela levava consigo parecia colada em suas mãos. Não a deixaria cair. Não podia.
   Sentiu o vento bagunçando o seu cabelo, e enquanto seu sorriso ganhava força, suas lágrimas jorravam. Parou quando chegou à ponte que atravessava o rio. Gargalhou quando a dor finalmente a invadiu. Abriu a caixinha. As fotos dele estavam por todos os lados daquele pequeno espaço. Ela delicadamente tirou as fotos de dentro da caixinha e as atirou ao rio. Jogou fora a dor que carregada dentro de si. Jogou fora as mentiras dele. Limpou suas lágrimas com as mãos tremulas. Respirou fundo e esperou o sinal verde para atravessar a rua. Era uma nova mulher.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Nada além de amor...



Autora: Ana Paula Damasceno

   Ele vivia por ela. Observava cada passo, cada gesto simples. Ele vivia através dos olhos escuros dela. O que seria o amor? Ele decerto sabia bem o significado dessa pequena e problemática palavra. Mas...por que o amor sempre trouxera consigo a dor da incerteza? Ele não fazia ideia  E isso piorava o estado em que estava seu pobre coração. Mas admitir que estava derrotado, pelo simples fato de amá-la, era inquestionável. Era somente sua. Seu secreto amor. Tudo o que ele queria ter. Ela era ele próprio. Sem sua presença, não existia mais um mundo para se viver. Ela era seu mundo. Todo ele.
   Como encará-la, se ele tinha medo de deixar escapar seu segredo de amor, através de seus olhos claros? Amar e Sofrer? Como dizer a verdade sem parecer um bobo pra ela? Seu cheiro impregnava todo o ar a sua volta. E o jeito como ela virava para vê-lo chegar, fazia seu coração querer explodir. Como uma simples chama, que ama tudo o que provoque fogo.
   Como sentir o suave contado dos braços dela a envolvê-lo? Se nem ao menos conseguia conversar futilidades. Como amá-la, sem parecer um louco? Tudo o que ele tinha para lhe oferecer era amor. Apenas amor.


Foto: Cena do filme: O Morro dos Ventos Uivantes.